Durante a visita oficial a Moçambique, em celebração aos 50 anos de relações diplomáticas entre os países, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o BNDES deve retomar um ciclo de financiamento para obras de infraestrutura em nações africanas. A proposta reacende debates sobre o papel internacional do banco e sobre a prioridade dos investimentos num momento em que o Brasil enfrenta suas próprias carências estruturais.
Lula defende expansão do crédito para exportar serviços
Lula afirmou que o BNDES precisa voltar a atuar como financiador de grandes projetos fora do país, especialmente em mercados africanos. Segundo ele, o Brasil perde competitividade internacional ao não oferecer apoio financeiro a empresas brasileiras que desejam disputar obras no exterior.
O presidente destacou áreas de necessidade em Moçambique, como portos, estradas, usinas e transmissão de energia, e assinou nove acordos em saúde, educação, agricultura e cooperação técnica entre os governos.
Histórico do BNDES na África deixa alertas
Embora a proposta seja apresentada como retomada estratégica, o histórico não é isento de controvérsias. Entre 2002 e 2016, o BNDES financiou bilhões em obras feitas por empreiteiras brasileiras em países africanos, especialmente Angola e Moçambique. Alguns desses projetos enfrentaram:
• atrasos e custos elevados;
• dificuldades de pagamento por parte dos países contratantes;
• denúncias de impactos sociais e trabalhistas;
• questionamentos sobre retorno efetivo para o Brasil.
Além disso, parte das empresas envolvidas, como Odebrecht, OAS e Queiroz Galvão, posteriormente se tornaram alvo de investigações da Lava Jato, o que aumentou a pressão pública contra financiamentos internacionais.
E os investimentos no Brasil?
O anúncio reabriu debates internos: por que financiar obras na África se o Brasil enfrenta graves apagões de infraestrutura?
Rodovias esburacadas, ferrovias incompletas, redes elétricas saturadas e portos congestionados são obstáculos conhecidos ao crescimento brasileiro. Governadores e prefeitos frequentemente relatam falta de recursos para obras básicas, enquanto setores como saneamento, mobilidade urbana e segurança hídrica seguem subfinanciados.
• Especialistas lembram que:
• o Brasil tem um déficit de infraestrutura estimado em mais de R$ 1 trilhão;
• obras estruturantes paradas ou atrasadas se acumulam em todo o país;
empresas brasileiras também precisam de crédito para investir dentro do território nacional.
A crítica central não é contra a cooperação internacional, mas contra a priorização em um cenário de limitações orçamentárias.
Governo alega que financiamentos não tiram dinheiro do Brasil
O Planalto sustenta que financiamentos internacionais do BNDES não utilizam verbas do orçamento público, mas sim linhas destinadas à exportação de bens e serviços. Isso significa, segundo o governo, que o dinheiro volta ao Brasil na forma de pagamento às empresas contratadas.
Ainda assim, especialistas alertam que há risco de inadimplência dos países tomadores e que o banco precisa ser criterioso para não repetir erros de ciclos anteriores.
Conclusão
O novo ciclo de apoio do BNDES à África coloca o Brasil novamente no tabuleiro internacional e pode abrir oportunidades para empresas brasileiras. Contudo, reacende uma discussão legítima: o país deveria priorizar investimentos internos antes de financiar obras em outros continentes?
Com infraestrutura deficiente, demanda crescente por obras e limitação fiscal, cresce a pressão para que o governo equilibre ambições internacionais com as necessidades urgentes dentro de casa.
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