Em um movimento dramático que amplia a retórica e a pressão sobre o regime venezuelano, o governo de Donald Trump anunciou a intenção de declarar o chamado Cartel de los Soles (“Cartel dos Sóis”) como uma Organização Terrorista Estrangeira (Foreign Terrorist Organization, FTO), com o presidente Nicolás Maduro apontado como um de seus supostos líderes. A decisão, se formalizada, marca uma escalada feroz na campanha americana contra o que Washington define como narco-terrorismo estatal.
O que afirma os EUA
Em 25 de julho de 2025, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções ao Cartel de los Soles, rotulando-o como “Global Terrorist Especialmente Designado” (Specially Designated Global Terrorist). Segundo a nota oficial, o grupo é “chefiado por Nicolás Maduro Moros e outras figuras de alta patente do regime venezuelano”, que teriam usado sua influência no Estado — nas Forças Armadas, no judiciário e na inteligência — para facilitar atividades criminosas.
De acordo com o Tesouro americano, o Cartel forneceria “apoio material” a outras organizações já reconhecidas como terroristas, como o Tren de Aragua e o cartel mexicano de Sinaloa.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que essas medidas expõem como o regime de Maduro “facilitou o narco-terrorismo por meio” do Cartel de los Soles.
Comparação com líderes terroristas tradicionais
A designação como organização terrorista estrangeira carrega um peso simbólico significativo: é uma categoria usada tradicionalmente para grupos como a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico — organizações que perseguem objetivos políticos por meio da violência. Para efeitos práticos, isso significa que contribuir para essa rede (financeiramente, logisticamente ou de outras maneiras) se torna crime federal nos EUA.
Nesse sentido, apontar Maduro como “líder de uma organização terrorista” o coloca, em termos legais americanos, numa categoria semelhante à de figuras notórias como Osama bin Laden (falecido), embora as motivações e a estrutura operativa sejam muito diferentes. Bin Laden estava à frente de uma rede jihadista global com base ideológica, enquanto os EUA acusam Maduro de chefiar uma estrutura criminal com ligação ao Estado venezuelano.
A controvérsia sobre a existência do cartel
Apesar das acusações dos EUA, a existência de um cartel clássico comandado por Maduro é tema de debate entre especialistas. Para alguns analistas, o “Cartel de los Soles” não funciona como uma organização vertical com hierarquia cartelizadora tradicional — como os cartéis mexicanos —, mas seria mais bem entendido como uma rede difusa de corrupção dentro das instituições do Estado venezuelano, especialmente nas Forças Armadas.
Reportagens apontam que não há consenso definitivo sobre as operações consolidadas de um “cartel” formal, e que parte das acusações de Washington pode ter motivações políticas, no contexto de uma escalada de pressão diplomática.
Reações internacionais e repercussões
Além dos Estados Unidos, outros países latino-americanos se aliaram à narrativa antinarco. O Equador, por exemplo, declarou oficialmente o Cartel de los Soles como “grupo terrorista” em agosto de 2025. A República Dominicana também seguiu esse caminho, ordenando que seus órgãos de segurança adotem medidas contra o suposto grupo liderado por Maduro.
Já no Congresso americano, o senador Marco Rubio reforça duramente a acusação de que Maduro não é um presidente legítimo, mas o chefe de uma rede criminosa que “se faz passar por um governo”.
Implicações legais e de segurança
Se a designação formal como FTO for consolidada, as implicações são severas. Além das sanções econômicas já impostas, a medida abre caminho para ações jurídicas mais amplas contra qualquer pessoa ou entidade que apoiem o cartel — e potencialmente autoriza uso de força militar. Segundo relatórios, há forte mobilização diplomática e militar dos EUA no Caribe, com o objetivo de conter o fluxo de drogas e desestabilizar a estrutura que Washington define como “narco-Estado”.
Por outro lado, a própria retórica reforça uma guerra narrativa: associa o regime de Maduro não apenas a um governo autoritário, mas a um mecanismo terrorista transnacional, justificando medidas de pressão intensa e talvez até intervenções mais agressivas.
A dimensão simbólica: Maduro “como Osama Bin Laden”?
Colocar Maduro no mesmo patamar de líderes terroristas históricos como Osama Bin Laden não é algo puramente retórico para Washington — tem base legal e simbólica. A designação de FTO não implica que ele teria operado em rede jihadista, mas sim que, segundo os EUA, ele lidera uma estrutura criminosa com alcance internacional e que ameaça a segurança nacional americana, assim como organizações terroristas convencionais.
Essa classificação reforça a narrativa de que o governo venezuelano, sob Maduro, é parte de um problema global, não apenas restrito à Venezuela ou ao tráfico de drogas. Para os Estados Unidos, é uma forma de legitimar sanções severas, medidas financeiras e até militares — todas sob a justificativa de combater o “terrorismo narco-estatal”.
Conclusão
A decisão do governo Trump de designar o Cartel de los Soles como uma organização terrorista estrangeira com Maduro como líder representa uma escalada dramática na política exterior americana. Vai além do combate ao narcotráfico tradicional: configura uma acusação de narco-terrorismo institucionalizado.
Se concretizada, coloca o presidente venezuelano em uma categoria legal que ecoa figuras terroristas históricas — com consequências práticas gravíssimas para a diplomacia, a segurança hemisférica e o futuro das relações entre os EUA e a Venezuela.







